Skol Beats
Impressões de uma maratona

Wilson Sukorski 



 
 
Impressões gerais

Um lugar E-N-O-R-M-E, várias tendas iluminadas no S do Senna, visto do alto mais parece uma filial do Play Center, ou um céu no chão (como diria o samba). Muita gente diferente. Gente bonita, gente da periferia – a galera - gente quase famosa, gente metida à besta. Uau !! que festa. Pensar nesta multidão que se desloca tal gigante jibóia, para assistir artistas que nunca foram ao Faustão, ao Gugu, ao Raul Gil !! Nem utilizam linguagem chula, popozudas e quetais, me faz pensar que existe alguma solução para o mundo. Mas seria só “mainstream” ? Eu e a política.

Meninos e meninas, confesso que dancei !! Impossível não dançar - esta pós-terapia moderna. Dancei e cai na gandaia, só confessável inteiramente fora do holofote desta revista. Quem estava lá também dançou, no corpo ou na cabeça.

Cada tenda temática (vide glossário) tem mais ou menos 1500 m2, um som poderoso, sub woofers que fazem minha camisa tremer ao vento da pressão sonora, muita gente alegre dançando, flertando, se exibindo, vendo, ouvindo. Logo na chegada, na tenda drum’n bass, para o show do RAM Science (do meu amigo e parceiro temporão Ramilson Maia) encontrei meus guias e instrutores : Loop - Lourenço Brasil – B; Paulo Beto e o Eric Marke (que está escrevendo um livro sobre a história da música eletrônica brasileira e encontra fortes resistência do “establisment” contemporâneo). Meus amigos pacientemente me guiaram, me instruiram, me acompanharam e me abandonaram à minha própria sorte. Sou patrocinado por Nossa Senhora do Acaso.

Eu, humilde compositor nacional, nada entendo do discurso musical que se impõe sobre todos com suave brutalidade. Tudo se mistura, as batidas pesadas formam ritmos complexos, através do vazamento, invevitável pela própria potência. Às vezes me interessa mais o espaço entre-tendas. Parece uma espécie de super “phase music”. Agora, já mais acostumado com as peculiaridades dos 4 estilos, passo a curtir a música e a dança de forma mais consciente. O slogan parece ser alegria total. 

Ainda mais um comentário de natureza geral, o público (ao redor de 40.000 pessoas) é muito alegre, bonito, parece descolado, calmo, até caricato - “very polite” – civilizado demais. Bebidas (é um troço da Skol, of course) e drogas leves rolam na maior naturalidade. Não há policiamento ostensivo (só na parte de fora), não presenciei nenhuma briga ou conflito, assim como nenhum atentado ao pudor – tão comuns nos mega shows de rock, de pagode, de axé, de carnaval, nos concertos. Garotas passam soltas de seus pares, flertam sem conflito, mas nada acontece. Sinto um forte gosto de conformismo na boca. Deve ser passageiro. Caso para mais uma Skol na tenda VIP !!



 
Falando de Música
Musicalmente falando, me interesso muito pelo drum’n bass e pelo techno, mas fiquei fascinado pelas performances de trance music, mais próximas talvez de minha linhagem de composição. Também me interessei bastante pela tenda menor de house, mais suave, melódica, quase harmônica de canône tonal / modal. Na análise a seguir procuro me despir de pré-conceitos e suposta formação cultural e montar um certo painel hedonista cult, que parece ser o espírito da coisa. Por costume, faço algumas pesquisas e absorvo o que pude aprender desta experiência. 
A seguir, análise por tenda :
Tenda Drum’n Bass
É a tenda nacional por excelência, quase uma tenda indígena. Tem o maior fluxo de público, a mais eclética junção que jamais presenciei. Talvez por ser a tenda mais popular tenha sido a mais neglicenciada em termos de som. A amplificação só ficou boa, digo boa, não ótima, nas performances dos estrangeiros. Vemos que o “jeca set – súditos de sua Majestade” ainda impera. Meus destaques pessoais :

Ramilson Maia : grande música, grande talento, sem dúvida o maior criador de dnb do Brasil na atualidade, ao lado do Xerxes (que não foi convidado, why production ?). Tem se apoiado em apresentações ao vivo, neste fluxo inovador utilizou uma “dobrada” : duas baterias e dois contrabaixos. Hiperreal, double drum’n bass. Suas composições, sim gente, ele compõe e isto precisa ser valorizado à altura – misturam, com muita propriedade e algum virtuosismo, elementos do samba (não aquele óbvio) com os elementos do estilo, utiliza como ninguém as conexões anímicas que animam as multidões, sempre carentes. Seu ponto fraco é também sua força, paradoxalmente, a falta crônica de ensaios (devido a inúmeros compromissos) e seus sets inusitados geram um alto teor de força primitiva. As colocações de voz poderiam ser mais performatizadas. O som da tenda estava aquém de suas potencialidades e o prejudicou bastante, mas é Ramilson - grande talento genuinamente nacional e grande alma. 

Ray Keith : creoulo inglês é uma festa em si. Experimentado e muito técnico, sua performance é de uma eletricidade que contagiou fácil quem já estava pronto para ser contagiado. Foi um dos pontos altos da tenda. Até as sombras dançaram, ele nos mostra que a cena “mainstream” tem muito a ensinar aos nossos locais. Toda a aclamação e currículum do rapaz-de-cigarro-apagado-na-boca, você encontra na coluna da Erika Palomino. A mim me ensinou o que é uma azaração de dnb de verdade. Grande.

DJ Patife : me ensinaram que o veterano grande DJ está agora compondo com a Fernanda Porto (que vem de formação erudita da Santa Marcelina) junto com o Xerxes como produtor. O primeiro produto ouvi e me convence, um trabalho meio bossa nova (nova ?) numa releitura bastante moderna. O público adora ! Minha pergunta é : quando não tivermos mais o que reler, vamos ler o quê ? Dizem que em Londres é must. Já exportamos, a preço de banana, travestis, jogadores de futebol, minhocas e aço. Vamos exportar DJs ??

Bryan Gee : outro inglês mainstream, só que mais pop. Realmente aqui o som começou a funcionar ! Vi o Pena Schmith na produção e me lembrei do Evento Mundão do SESC, onde os nacionais tinham limite de dBs e de tempo e os internacionais o som todo e compreendi bem o processo. Velha maracutaia das multinacionais para vender o deles, aliados com os que pensam igual a eles na província, seus súditos. Muito palatável. Enfim um pouco de pop dnb bacana.

Andy : mais um brasileiro e o som ficou estranho de novo. O púlbico reclamava !! Estranho ou estratégia ? Grande virtuoso dos pick ups. Segundo me informaram, é uma das grandes promessas de exportação “made in brazil” para outras plagas. Cara legal, cheguei a conversar com ele que recém chegou da Inglaterra trazendo umas “frequências” (vide glossário : O que é DJ ) muito legais. O som foi sofrível durante toda a apresentação. A música ótima.

DJ Marky : Este é o DJ top of line do Brazil. Sua apresentação é surpreendente. Querido do público e da crítica, estava muito bem em tempo real. A galera dançou e se esbaldou. Dos nacionais era o que teve o melhor som (God save the queen). Ele é um DJ no sentido inteiro da palavra, muito descolado, com as melhores músicas, sabe animar uma festa. Me disseram que ele está pouco à vontade na posição de não produtor e que seus próximos lances incluem novas composições. Welcome friend !!!

Tenda Trance
John Digweed : muito falado, o grande DJ fez um show correto, talvez com um certo receio da quantidade de público. O som ao contrário da tenda Drum’nBass estava maravilhoso (permitam o orgasmo – pois é o sonho de todo músico eletrônico, lindíssimos graves, ótimos e bem equilibrados medios graves, médios e agudos, e um agudo que transpassava o ar na velocidade do som. A música, muito pop para meu gosto, atingiu em cheio os meninos e meninas, que bem mais leves e elitizados, participaram em suas mais de 3 horas de performance.

Nude : único Live PA brasileiro da tenda é um grupo das antigas - como diz o jargão. Formado por Marcelo Gallo e Gonçalo Vinha este é um “projeto” que posso classificar como “popmente correto”. Hay que ser pop nesta tenda, of course. Cena : entro na tenda. Um som etéreo e um leve beat, este som vai se radicalizando, muito, muito mais (isto acompanhado pelos gritos do público) até que a tradicional semi bate estaca retorna triunfante (gritos loucos da platéia). Alegria geral  - recomeça a dança. Nos teclados e controles o “live nude” orgulho nacional. Grande música.

Christopher Lawrence : DJ americano empolgou a moçada em sua longa performance de mais de 3 horas. No sentido estrito do estilo foi o que mais me agradou. Suas intervenções são limpas e claras, enfim o trance em sua pureza estilística, se bem que algumas pessoas me disseram que ele deveria estar na tenda techno, pois seu som é muito pesado. Aliás, isso ocorreu diversas vezes em outras situações. As fronteiras entre os estilos estão cada vez mais fluídas.

Tenda Techno
Richie Hawtkin (Plastikman) : O canadense foi a maior surprêsa da noite e, para mim e alguns dos meus amigos, o melhor show de todo o festival. Imagino que o “plastikman” deve ter surgido pelo seu uso inusitado dos subwoofers, literalmente o ar se esgarça, se plastifica por uma onda de graves e sub graves que se mantém durante toda a sua performance. Sua camisa treme, você sente cócegas nas bochechas, é uma sensação que, tenho certeza, causaria inveja em qualquer compositor de música eletrônica de pesquisa. Sempre apaixonados pelos graves, o mais misterioso dos sons musicais. Sobre esta base de baixas frequências sobressaíam sons agudos muito delicados, médios (quase sempre filtrados em movimentos de slide). Apesar do exagero nos graves, o som como um todo não estava exageradamente alto. Grande apresentação e a mais surpreendente da noite. 

Level 202 (Live PA) : Leia-se Renato Cohen. Único brasileiro a se apresentar ao vivo na tenda, o Level 202 é bastante interessante, mas sem o brilhantismo dos outros brasileiros nas outras tendas. Explico, sua apresentação é correta, mas recheada de clichês (não existe lugar com maior número de clichês que o techno). Foi o único que percebi que estava usando algum controlador. Talvez um “pad” para disparo de sequências. Bacana !

Tenda House
Felipe Venâncio : Mistura interessante de riffs da música brasileira com a batida mais leve e sincopada do house. Esta tenda estava mais vazia durante quase todo o evento, mesmo nos momentos onde caiu uma bruta chuva, ainda dava para dançar no local. O estilo comporta com mais facilidade a utilização de músicas mais melódicas e baixo mais desenhados. Ouvi até algumas modulações interessantes, isto é, não as óbvias. Bom trabalho.

Joaquin “Joe” Claussell (Body & Soul) : o DJ cool americano foi o de maior destaque na tenda house em minha humilde opinião. Aqui deu para entender as diversas nuances do estilo. Música muito pop e dançante, misturada com profusões de melodias neutras, vozes transformadas eletronicamente e outros truques realizados com maestria. O mainstream do house em sua forma pura.



 
 
Tema e Variações : Vanguarda ou Retaguarda ?
Estudo comparativo entre as músicas eletrônicas de pesquisa e de pista

Tento fazer aqui apenas um esboço de algo que poderia ser uma tese de pesquisa com páginas e páginas. Como pesquisador em música eletrônica, performer, multi instrumentista e compositor, minha formação me habilita para uma análise em alto repertório da música eletrônica de pista. Me habilita ? Esta pergunta rondou minha cabeça e ouvidos (ainda zunindo pela potência) no day after do evento. 

O que é alto repertório ? Explico, pessoas que têm formação musical européia erudita, geralmente realizada em Universidades do Brasil e exterior, habilidade em leitura/escrita musical, que tocam algum instrumento tradicional de forma razoável, que foram levados pela modernidade a trabalhar com música eletroacústica e, que por isso, se advogam a paternidade daquilo que chamam de “dissolução” realizada pela música eletrônica de pista.

O que é baixo repertório ? Pessoas que têm longa formação intuitiva e aural, que têm uma imensa coleção de cds e discos, que têm “atitude” - esta evanescente característica moderna - que são levados à discotecagem para “ganhar um troco” e mais tarde se percebem formadores de opinião de imensas parcelas da juventude. Pessoas que são levadas à composição musical por mero acidente – de DJs a produtores – por uma real necessidade de expressão e sobrevivência. 

Vanguarda e retaguarda ? O que pode dar poder de julgamento entre coisas tão parecidas, siamesas mesmo na aparência e superficialidade, e tão díspares na realização e na essência ? A música eletrônica de pesquisa certamente forneceu as ferramentas – o hardware e o software – para a música eletrônica de pista. Mas o mindware (a tecnologia de invenção, se preferirem) é de origem completamente oposta. Enquanto uns preferem a pesquisa solitária (de companheiros e público) geralmente pagos com dinheiro público, outros são a exteriorização de uma revolução mais ou menos consciente do impacto que os novos meios têm em relação ao público. 

Me atendo aos personagens da alta cultura, afirmo que todos os compositores do “mainstream” – é, ele existe também no ar rarefeito da alta cultura - foram em algum momento de suas carreiras, personagens pop. Ou foram transformados, pela indústria cultural em personagens, o que dá na mesma na nossa sociedade onde a versão é sempre mais importante que o fato : Beethoven e sua cabeleira romântica de cientista louco, Mozart e suas óperas, Stravinsky o burguês comunista, Schoenberg o judeu errante, Boulez a bicha moderna, Stockhausen o alemão revoltado e místico, John Cage este sim um pop pós-dentro do pop, Luciano Berio o comunista complacente, entre vários outros. 

Os aparatos eletrônicos chegaram primeiro a uma elite da música, geralmente inscritos em Universidades do primeiro mundo. A nós, habitantes deste espaço forçadamente alternativo – de baixo repertório – cabia tentar imitá-los, com uma saudade de algo que nunca fomos, fazer música européia num cantão tropical e sem cultura. Geralmente sem o mínimo contato com o público. Raríssimos concertos de música eletrônica brasileira, que assisti nos últimos vinte anos, tiveram grande audiência ( mais de 50 pessoas !!), excessões feitas a alguns eventos da Jocy de Oliveira e meus em parceria com Livio Tragtenberg. 

Oswaldianamente : o povo ainda comerá do biscoito fino que fabrico. Será ? Em minha opinião depende bastante do biscoito e mais ainda do recheio (!!). Se você vende seu biscoito com sendo fino porque fez um curso de culinária de vanguarda na França, Alemanha ou América, deveria experimentar biscoito de fubá ou de tapioca. Todos sabemos que os músicos estão todos loucos para serem explorados, ricos e famosos. E quanto dói a fama pop, que todos, repito todos, dos DJs que assisti ao mais tímido pesquisador de vanguarda, estão literalmente rifando a mãe para conseguir. 

A indústria cultural (tal moedor de carne humana moderna) está sempre mastigando novas tendências e, após certos procedimentos de normatização, de imagem, de embalagem, de mídia, colocando suas descobertas nas prateleiras globais. O que é necessário entender de uma maneira profunda é que aquela música romântica – mesmo sendo a mais experimental - aquela do compositor “gênio incompreendido”, aquele que será considerado em sua real importância após a morte, o gênio solitário da raça, o homem que tudo vê em sua solidão, este “homem-conceito” nunca existiu e é uma invenção da própria indústria cultural. Conheço pessoalmente muitos que se consideram nesta perspectiva, montam suas carreiras pensando exatamente nisso. O que é patético e pouco contemporaneamente necessário.

O que é importante sacar neste mundo unificado e unidimensional do mercado global, é que a música é uma “commodity” com valor de troca universal. Este processo teve início com o fenômeno “Beatles” na Inglaterra, e de lá para cá só se intensificou. Até os dias de hoje, umas das pautas de exportação mais importantes do reino de Sua Majestade continua sendo a música. Segundo os últimos dados (não tão atuais assim) esta intangível “commodity” – solúvel no ar, se você preferir – era responsável por 30% da pauta de exportação da Casa de Windsor e causa furor na City. Até o Paul Mc Cartney é Sir. Lady Westwood !

Os americanos, muito mais pragmáticos, sempre tentaram roubar este lugar dos colegas insulares. Agregaram elementos em que são mestres por excelência advindos do audiovisual : a imagem, a postura, a vestimenta, a atitude e por fim o vídeo clipe – uma coisa bem americana, mundana. Mas a “nobreza”, a “invenção de estilos”, o “recozido”, se quiserem, continua com os inglêses. Se engana quem pensa que isto faz parte de uma espécie de talento natural, ou geração espontânea. Trata-se de uma máquina muito bem azeitada a serviço da promoção, divulgação e principalmente, utilizando a mesma técnica imperialista (do Império onde o sol nunca se pôe – lembra ?) de angariar apoio local – os cidadãos honorários, vice-reis, governadores de província. Assim não é por acaso que Londres é a meca da música eletrônica. É, meus queridos, o mainstream tem dono. E quem contra ele se interpõe é recebido à baionetas caladas, ao som de gaitas de fole, of course !

Como disse alguém : em tempos de paz as pessoas dançam e comemoram, em tempos de guerra as pessoas marcham - e murcham, acrescento. A música eletrônica de pista resume bem este “zeitgeist” – em tempos de incerteza, que as pessoas meio dancem, meio marchem. Que se contentem com o meio termo ! Que se divirtam, mas que sigam o “beat” em ordem ! A tensão está sempre presente na batida forte e na repetição. O modo de expresão fundamental é a agressão comedida e estilizada. Não existe meio de expressão mais real que a violência, com sua surprêsa e onmipresença. E neste aspecto o Brasil sempre foi vanguarda, só agora recuperada de forma mais ou menos consciente. Vanguarda da barbárie, o espaço que nos cabe neste latifúndio.

Assim o Brasil está começando a comer um pequeno naco deste verdadeiro “boom” mundial. Brazil for export, como o recente lançamento : Caipirinha eletrônica, com os destaques do cenário nacional da música eletrônica de pista, todos com sotaque genuinamente nacional – o universal é aquele que canta seu quintal – mesmo que o quintal seja literal. Confesso que as vezes fico achando que fazemos apologia da miséria e da falta de cultura/educação. Por exemplo, quando todos forem alfabetizados no Norte/Nordeste acabará o bumba-meu-boi ? Seremos finalmente um País civilizado ? Consumidores dos produtos da metrópole da vez ? Seremos todos urbanos ? Como diz um amigo, trocaremos o bumba-meu-boi pelo bumba-meu-bus ? Dé real mais o busão, mano !

Desta maneira é quase surreal, ou brazrreal, compararmos em termos frios a vanguarda eletrônica de pesquisa com a música eletrônica de pista. Me explico. Ambas são fenômenos que têm pouca importância em termos financeiros para a indústria do entretenimento. O Skol beats (o nome já diz tudo, porque não batidas Skol ? Ou Viva batidas ?) é um festival anual – uma celebração – dentro de uma realidade que não é tão rósea quanto se propaga. A realidade dos produtores tanto de uma corrente quanto da outra é bem mais complicada. As casas de dança de São Paulo, os “clubs”, continuam a esfolar os DJs com cargas horárias que fariam o trabalho de um estivador parecer divertimento. A grana é curtíssima. As condições precárias. 

Do mesmo modo, o pesquisador tem guarida na Universidade, isto é, aqueles que têm condições e poder de se especializarem no Exterior (obter o certificado ISO 17000). Mas tanto estes, como outros descertificados, estão condenados a trabalharem em condições também precárias - onde, se o trabalho não é tão braçal (pernal – pela dança ?) quanto ao dos DJs em fase de ascenção, também o desespero de não poder contar com nenhum apoio – oficial, de mercado, de status que seja – leva ao mesmo lugar : a obscuridade, num círculo vicioso que te empareda. Aqui, como ali, o salário é minguado – um professor universitário PhD ganha 1/3 do salário de um ascensorista do Congresso, ou pouco mais de duas vezes o salário de uma boa empregada doméstica.

Estas condições são a marca brasileira por excelência, explorar a maioria e mostrar com estardalhaço, a todos em rede nacional, os poucos vitoriosos, como modelo de batalha pessoal – os vencedores, esta minoria cada vez mais tendente a zero. Isso acontece em todos os campos : no futebol, na música popular, nas passarelas, nas aspirantes à popozudas, nas redações, na música de concerto. Quantos pelezinhos são necessários para cada Pelé ? 

Então, os DJs em ascenção e os pesquisadores em queda, poderiam ter um mesmo comportamento, uma questão de consciência de classe, quem sabe. Mas não é isso que acontece. Os que se auto intitulam certificados desprezam os seus pares com o título de baixa cultura. Os DJs temem tocar a maravilhosa torre de marfim – construída com marfim traficado da África por europeus – dos mestres e doutores da alta cultura. E assim a mesmice da nossa cultura se perpetua. E se tudo se misturasse ? E se houvesse mais troca ? E se houvesse postura política mais incisiva ? E se nos mudassemos todos para a Suiça ? 

Tudo ainda está para ser realizado neste pequeno vilarejo chamado Brasil. E se me perguntarem se vejo alguma luz no final do tunel, respondo com impaciência : que tunel ?



 
 
Pequeno Glossário 

O que é um DJ : um disc jockey (amestrador de pick ups) é uma pessoa que escolhe o teor de sua alegria, logo é Deus. A maioria deles não compõem o que toca, faz pequenas interrupções no fluxo das músicas e intervenções via “scretch” – o arranhado típico do hip hop, de onde teve origem – com o passar do tempo as intervenções foram se tornando muito longas e algumas delas viraram composições, ou as suas mixagens caíram no gosto popular e viraram “remixes”.

Um DJ típico foi, é ou será dono/empregado de uma loja de discos, não tem obrigatoriamente nenhum conhecimento técnico de composição ou de música. Ele mais tarde montou/montará uma produtora, um selo e, o mais importante, uma rede de contatos internacionais. Viaja constantemente para Meca (leia-se Londres) para curtir as novidades, comprar (tal sacoleiro) os últimos lançamentos : Lps em vinil das bandas – eles são completamente contra a utilização de Cds para discotecagem -não ouvi ninguém citar, nem dar crédito a nenhuma delas nas 14 horas que fiquei no local  - e o seu maior truque os famosos Cds de “loops”. Explico melhor :

Pilotando pick ups de última geração (algumas delas custam mais de 1.000 dólares – 150 só pela cápsula), eles utilizam vários discos em vinil com músicas de bandas eletrônicas (principalmente inglesas). Paralelamente, em MD ou CD produzem algumas montagens com loops variados. Existem Cds pré produzidos com loops para todos os gostos, cobrindo toda a gama dos 4 principais estilos além dos mais variados efeitos sonoros (chamados de frequências, pelos usuários). 

Sua função enquanto criador será mixar e remixar, transformar (através de filtros, mudanças de velocidade, scretchando, paradas abruptas, etc, etc) e sincronizar todo este aparato em tempo real. Estes Cds de loops são uma espécie de sampler (amostrador de áudio digital), só que muito mais baratos e flexíveis.

Portanto, o material de partida de um DJ é quase o mesmo de um compositor de música eletrônica contemporânea. Amostras, mixagens, manipulação do tempo, do silêncio, criando um discurso único. Surpreende aqui é que não vi nenhum DJ utilizando computador. Com os recursos atuais (em software e hardware) todo este aparato (pick ups, mixers, filtros, etc) poderiam ser substituídos por um laptop e um controlador tipo não teclado, como uma luva de dados (data glove), por exemplo, ou um controlador tipo Bucla Thunder. Mas isto iria contra o conceito de MC (master of cerimony) mestre de cerimônia e perderia a aura. 

Na nova geração de DJs se destacam pessoas que pensam um tanto diferente e estão rompendo estes conceitos, entre eles temos compositores de classe e inovadores como o grande e querido Xerxes, o Ramilson Maia, o Loop B, o DJ Dolores, o Paulo Beto e seus projetos. Segundo me contaram, o DJ Patife também está começando a compor (ouvi uma peça maravilhosa com a Fernanda Porto) e temos também na cena Trance, o Nude (leia-se Marcelo Gallo e Gonçalo Vinha) com um show impressionante e forte. 

Assim, os DJs se dividem em 2 tipos : aqueles que são disc jockeys de composições alheias e os que compõem sua próprias coisas e ainda as realizam ao vivo (chamado “live PA” ou “live power amplification” ou amplificados ao vivo !? ). O Brasil é campeão global do drum’n bass, certamente pela força rítmica da música popular e não popular brasileira e pela mistura “pós tudo” de nossa cultura urbana, com suas belezas e barbarismos, sempre radicais.
 

Os 4 Estilos do Mainstream 

Drum’nBass – Como diz o nome, a base está na percussão (particularmente bass drum com pitch) e nas linhas de baixo. Pode ser acrescentado coisas ao vivo como : bateria, baixo, outros instrumentos, incluso acústicos. Ao vivo se parece mais com um show normal de música. 

Trance -  música hipnótica, repetitiva. O virtuosismo está na qualidade das paradas no meio das músicas e nas trocas de beats. Ao vivo (live PA) tende a ser mais eletrônica com nuvens de sons abstratos que se repetem, nascendo e morrendo do nada. Por ser mais repetitivo é a música escolhida das raves. Se aproxima do minimalismo e da música eletrônica abstrata clássica. Pode ser pop até o saco !!

Techno – é estilo que mais pode ser rotulado de música eletrônica – guarda uma certa tradição com os primeiros trabalhos do Kraftwerk, Skinny Puppy, etc  (ostinatos / pedais eletrônicos e baixo repetitivo sobre os quais se acrescentam outros elementos mais distendidos no tempo). O virtuosismo está nas filtragens em slide contínuo e os efeitos que se podem conseguir através deste dispositivo.

House – o mais leve dos estilos, a levada rítmica está mais para o swing do disco music e da dance music. É também o mais mauricinho dos estilos, um lugar agitado, mas onde é possível até conversar. Uma música mais melódica de cunho tonal/modal com refrões e muitos cânones repetitivos. Som agradável e que por outro lado pode ser muito pop, com obviedades de arrepiar os mais bem informados.



 
 
Improvements :

A julgar pela grana envolvida (falam em US$ 1 Mega), do público cada vez maior, inevitavelmente muitos outros elementos tomados da música eletrônica tradicional de pesquisa serão em breve incorporados aos shows de música eletrônica para pista.
Cito aqui alguns deles que podem servir como ponto de partida : 

- Utilização de espacialização sonora : primeiramente utilizada pela música concreta e eletrônica nos anos 60 e ainda hoje utilizada pela chamada música acusmática, trata-se da utilização de vários conjuntos de caixas acústicas estrategicamente distribuídas pelo espaço. Uma organização mais simples inclui o uso de 8 caixas. Mas, existem casos como o do Pavilhão Philips onde foram utilizados 1024 alto falantes num domo. O equipamento de som básico para a espacialização já está disponível, os mixers utilizados já são multicanais, as fontes são diversas, então é só uma questão de vontade e oportunidade. Através dos recursos da espacialização o som pode literalmente viajar através do espaço. Um elemento muito forte de expressão musical, característico somente do som eletrônico, pois só este pode ser decomposto em camadas e depois direcionalizado. Penso que a primeira corrente a utilizá-la será certamente a da trance music e a techno.

- Forte digitalização através de programas de síntese digital de ponta como o CSound. Programas de sequenciamento mais complexos e controlados em tempo real. Aumento da resolução acústica (24 bits a 96 Khz, por exemplo) através de uso de laptops com placas de áudio multicanal USB (o que pode facilitar a programação da espacialização sonora, entre várias outras coisas). A manipulação em tempo real da voz, do som do público, do gemido da gatinha, do corpo, do barulho da avenida em frente, etc. através de sampling / ressampling.

- Uso de controladores MIDI alternativos e instrumentos inusitados : theremins, sensores, data gloves, bucla thunder, triggers ligados a controladores como o Yamaha DM5, pads que disparam sequências, todo o aparato da percussão eletrônica, etc. Estes controladores alternativos, além de manterem a performance gestual / musical – a contraparte material do trabalho musical, ampliam sua abragência e visibilidade - são práticos, funcionais, musicais e de alto impacto, assim é só uma questão de tempo até sua implementação nas raves e pistas.

- Pensamentos mais complexos em relação à condução das vozes e da harmonia. Incorporação de instrumentos acústicos – via sampler ou ao vivo. Maior exploração da voz humana : modificada, sintética, cantada, falada, narrada, teatralizada, em canto falado, agressiva, etc.. Maior mescla de estilos : jazz, mpb, todas as derivantes do pop, do clássico, do contemporâneo, do experimental, da vanguarda histórica, da música étnica das mais diversas origens.

- Maior diversidade de ritmos escapando do 4/4 tradicionalíssimo e omnipresente. Polirritmias mais complexas utilizando sub-divisões não binárias (ternárias, quinárias, septenárias, etc). Modificações de acentuação fugindo do 1 e 3 no 4/4; maior liberdade nas articulações musicais : crescendos e diminuendos mais radicais, ping e pong estereofônico / quadrafônicos com escala de velocidades, exploração da expressividade dos ruídos e dos sons não musicais, busca incessante de maior potência e complexidade no motor rítmico, lembrando que ritmo não é só percussão, mas articulação, silêncio ou pausa de efeito, acentuação (ou distribuição de pontos salientes no tempo), multi camadas, simultaneidade (o que é diferente de bagunça), entre outros.

- Ter em  mente o sábio ensinamento da criação musical, mas que pode ser extendida a todos os campos do conhecimento humano : manter-se criança. Criança no sentido como a umbanda o encara. Em todas as artes que têm contato com o público, este é um ensinamento primevo e deve ser atualizado cotidianamente. Segundo estes preceitos um espírito de criança é formado por três elementos : criatividade, espontaneidade e ousadia. Criatividade de transformar objetos e máquinas tão sem sentido, como os atuais instrumentos eletrônicos, em meios reais de expressão; espontaneidade de se dar a liberdade de todo este esforço e tensão serem vivenciados com imensa alegria; ousadia de procurar o novo, não pelo novo, mas o novo que possa partilhado em suaves ondas por meus iguais.

Existem ainda outras possiblidades já exploradas pela vanguarda deste movimento, como a utilização forte de ritmos brasileiros (sambão, maracatu, coco, etc) como é realizado pelo pessoal do Recife e alguns produtores de São Paulo. O uso intensivo de instrumentos de percussão tradicionais brasileiros, fortemente amplificados como pandeiro, tambores de diversos matizes, zabumba, treme-terra e contra-surdos. Instrumentos musicais da cultura popular : cavaquinho (do mestre Fred 04), rabecas, berimbau, etc. Instrumentos inventados : instrumentos construídos com materiais do cotidiano, equipamentos culinários, da indústria (soldadores, maçaricos, lixadores); instrumentos eletroacústicos mais sofisticados.



 
 
Pequena (in)conclusão

Já que tratamos aqui de um evento extremamente hedonista, vou procurar analisar a seguir alguns dos impactos que me parecem relevantes do ponto de vista perceptivo, procurando isolar e relegar o pensamento, a crítica, o sarcasmo mesmo, ao corpo do texto e relegar aqui sua importância. A pergunta que procuro responder aqui é : o que a música eletrônica de pista traz de inusitado para a percepção, da minha percepção enquanto vivente ?

A música eletrônica de pista traz para a percepção vários elementos dos quais posso destacar :

- o uso intensivo dos sons graves com grande qualidade e potência diferenciam de maneira total o pensamento musical do estilo dos antecessores. O som é percebido quase como vento, lufada.

- o beat acelerado (lembro do Ramilson dizendo : gente estamos em 182 bpm !) diferiencia-se do batimento cardíaco normal ou alterado. É o ritmo do coração em momentos extremados – da corrida de fundo, do orgasmo intenso, do ataque cardíaco. Liberação de endomorfinas e adrenalina em alto grau.

- Daí a catarse coletiva consentida – ou a alucinação consensual – característicos do trance e do techno, mais que também ronda outras vertentes que tem com sub-produto uma alegria e uma dissipação de tensões. Cansado e calmo numa manhã nebulosa.

- O lado aeróbico do processo de fruir. Na música eletrônica de pista fruir é movimentar. A sintonia é pré linguística, é corporal. 

- O inconsciente : a música acontece enquanto todos os “outros” dormem. A mensagem é passada quando seu corpo clama por descanso. A música te pega no limite. Os horários fogem do maquinismo burguês – das 5 da tarde às 9 da manhã. Sacrifício, purgação, maratona, diversão ao extremo. Arte radical beirando os esportes radicais. Limites do corpo e da percepção. Coisa para a psicanálise desenvolver.

- Todos estes elementos primitivos da percepção e da consciência amalgamados têm um efeito estimulante e diferenciador. Somos grupo. Temos atitudes grupais. O que me faz pensar : Oh God ! I love this game !
 

Wilson Sukorski
São Paulo, Maio de 2001